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São Pedro de Alcântara: a primeira colônia alemã de Santa Catarina


Acomodações das familias nos porões dos navios


(O texto abaixo é apenas um compilamento do texto original que se encontra no site
do historiador Toni Vidal Jochem. Disponível na íntegra em: http://www.tonijochem.com.br/col_saopedro.htm)


                   O início do processo de colonização do Brasil, com destaque para a região sul, foi uma decisão política promovida por Dom João VI. Após a tentativa de Pombal com os portugueses (açorianos), o governo incentivou a colonização estrangeira para, entre outras coisas, promover a dilatação do vasto Reino, ocupar vazios demográficos (objetivo estratégico), produzir alimentos (fins econômicos), mas, basicamente, para instituir uma classe de pequenos proprietários rurais, até então praticamente inexistente no Brasil.
A abertura dos portos, no memorável dia 28 de janeiro de 1808, teve, por consequência, a vinda de inúmeros estrangeiros para o Brasil. Principalmente europeus. Por isso, um edital do Príncipe Regente, de 1808, permitia a imigração de não portugueses, além de dispor sobre a concessão de terras a católicos de outras nacionalidades - as chamadas sesmarias. Assim, baseado na pequena propriedade familiar, a imigração alemã esteve estreitamente vinculada ao sistema de colonização brasileiro, cuja políticapautou-se na existência de conflitos nas fronteiras internacionais devido às grandes áreas de terras devolutas consideradas desabitadas - apesar da existência de grupos indígenas e posseiros. Nesse contexto, os alemães eram considerados bons agricultores e, portanto, imigrantes ideais para povoar vazios demográficos no regime da pequena propriedade rural.
Implantando um processo de colonização, em 1812, o governo ensaiava seus primeiros passos. Todos os imigrantes instalados no Brasil foram introduzidos às custas do governo brasileiro e contemplados com a doação de terras. Por intermédio de um edital expedido em 25 de novembro de 1814, Dom João VI convida os europeus, de uma forma mais contundente, a emigrarem.

A carta régia de 6 de maio de 1818 serviu de modelo para cláusulas contratuais que estimulavam a emigração, pois continha concessões substanciais aos imigrantes, tais como:
a) passagem livre por mar e por terra no Brasil; b) doação de terreno com casa provisória;
c) para cada família de três ou quatro pessoas, um boi de tração ou um cavalo, duas vacas leiteiras, quatro ovelhas, duas cabras, dois porcos, sementes de trigo, arroz, feijão, milho, linho de cânhamo e óleo de rícino para lâmpadas. Exigia-se dos imigrantes - eram admitidos somente os que professavam o catolicismo romano - que trouxessem um médico, farmacêutico e dois a quatro religiosos. Comprometia-se o governo a construir e equipar uma capela.

O esforço do governo em incrementar a imigração alemã durante o Império tinha relação direta com os interesses brasileiros de instalar no país agricultores livres, "civilizados", em regiões não ocupadas pelas grandes propriedades, sob o controle do Estado. O não desenvolvimento de algumas colônias instaladas no litoral do Brasil central foi atribuído, entre outros fatores, à inadequação dos imigrantes aos trópicos. Esse fato levou o governo a repensar as fundações coloniais, condicionando-as para o sul do Brasil, onde, para arrematar, o número de escravos era pequeno. Esta é uma das razões que justificam, em parte, a existência de inúmeras colônias alemãs nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Mas será Santa Catarina, e nela a colônia São Pedro de Alcântara.

No contexto do processo que culminou na fundação da Colônia São Pedro de Alcântara, em 1828/29, toda a Província de Santa Catarina constituía-se de uma cidade: Desterro - a capital; três vilas: Laguna, Lages e São Francisco. Sendo sua população predominantemente de origem lusitana. À mesma época, a única via de comunicação ligando a freguesia de São José, localizado no continente fronteiro à Ilha do Desterro, e, portanto, também a capital da Província de Santa Catarina, com a vila de Lages, no planalto serrano central, era a modesta estrada de cargueiros que existia desde o final do século XVIII.

O Governador da Capitania de Santa Catarina, Coronel Manoel Soares Coimbra, movido pela sensatez, elaborou, estrategicamente, um plano defensivo para a Ilha de Santa Catarina, planejando a instalação de dois núcleos coloniais às margens desse Caminho-de-Tropas para Lages. Os planejados núcleos coloniais seriam constituídos por soldados casados e por lavradores, tendo em vista fins militares. Concebia-se que os militares, constituídos em colônia, além de afugentar os gentios, dedicar-se-iam às tarefas agrícolas e bélicas, constituindo-se em potenciais mecanismos de defesa para a Capitania em caso de emergência ante a fúria dos inimigos, principalmente, os espanhóis. Alguns anos após, motivado por desentendimentos administrativos, o Governador Manoel Soares Coimbra foi levado preso a Portugal, inviabilizando a implantação dos núcleos coloniais.

Para reforçar a colonização e viabilizar a ocupação de vazios demográficos, em setembro de 1828, Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiros, Imperial Inspetor da Colonização Estrangeira, teve autorização para receber no porto do Rio de Janeiro o navio alemão "Johanna Jakobs", que trazia, da Europa, centenas de imigrantes para o Brasil. Eles são convenientemente desembarcados e alojados na Armação de São Domingos, no Rio de Janeiro, até o final do mês subseqüente. Eram 523 imigrantes originários, em sua maioria, da região de Eifel, localizada no sudoeste da Alemanha, ao norte do Rio Mosela (margem esquerda). Na capital do Império foram acrescentados ao grupo de imigrantes 93 homens liberados da chamada "Legião Alemã", o corpo da tropa de mercenários alemães no Exército Imperial Brasileiro que havia sido dissolvido naquela cidade, assim como 19 ex-integrantes do 27º Batalhão de Caçadores de Santa Catarina, igualmente dissolvido. Eram 146 famílias. Totaliza-se, assim, 635 pessoas.

Do Rio de Janeiro foram despachados em 28 de outubro de 1828, pelo Monsenhor Malheiros, a bordo dos veleiros "Luiza" (um brigue) e "Marquês de Viana" (um bergantim), com destino a Desterro (hoje Florianópolis), sul do Brasil, onde aportaram, respectivamente, em 07 e 12 de novembro de 1828. O brigue "Luiza" transportou 276 pessoas e o bergantim "Marquês de Viana", 359 pessoas.
Após a chegada ao Desterro, os que foram transportados pelo bergantim "Marquês de Viana" ficaram alojados nos quartéis da capital catarinense (campo de manejo), juntos aos Batalhões 8º, 18º, 27º e 4º de artilharia, enquanto os que vieram no brigue "Luiza", por haverem adoecido durante a viagem, foram "hospedados", involuntariamente, "livre de comunicação", e completamente isolados na Armação da Lagoinha - antigo estabelecimento de pesca de baleias fundado na costa oriental da Ilha de Santa Catarina. Lá, também, estava aquartelado o 14º Batalhão do Exército. Neste estabelecimento os imigrantes foram amparados, no que tange à assistência médica, por conta do governo provincial.

Completamente isolados e em plena ociosidade, requereram, naquela localidade, terras para cultivar e de cuja solicitação não obtiveram resposta.

Assim ficaram os imigrantes, tanto os transportados pelo "Luiza" quanto os imigrantes transportados pelo "Marquês de Viana", à espera, impacientes e em parte desanimados diante da morosidade dos poderes constituídos referente aos encaminhamentos elementares visando a sua transferência para a mata virgem. Essa morosidade tinha motivo: as terras destinadas a recebê-los ainda não haviam sido demarcadas e, portanto, não havia condições humanas para "enfrentar" a floresta. Assim esgotaram-se, nos quartéis, os últimos 50 dias de 1828. Lá passaram o natal e o ano novo, rolando aqui, empurrados dali, sem nenhuma privacidade, dividindo espaço com os soldados da campanha - nenhum cronista registrou como viveram, suas expectativas e esperanças, como reivindicaram seus direitos, como sobreviveram e como ocuparam-se diariamente durante aqueles meses mais longos de suas vidas. Irritados e impacientes diante da insegurança provocada pela peculiaridade da situação, homens habituados ao trabalho e agora ociosos, curtiam desgosto próprio e alheio nas dependências de alojamentos humilhantes.

O governo provincial catarinense não pudera executar, por conseguinte, antes da chegada dos imigrantes, quaisquer medidas práticas, embora indispensáveis, à instalação ao menos de um núcleo colonial, à falta justamente de decisões administrativas prévias da Corte e do envio dos respectivos recursos financeiros pelo Tesouro Público. Enquanto isso, todo o grupo de imigrantes permanecia alojado nos quartéis do centro da cidade ou na Armação da Lagoinha, em situação análoga ao caos psicológico e material. No decorrer desse tempo muitas queixas foram apresentadas, ora ao governo catarinense ora às autoridades ligadas à colonização, na Corte, por causa da situação difícil decorrente do alojamento que a cada dia se agravava. Queixavam-se da iminente perda das sementes, trazidas da Alemanha, destinadas às primeiras culturas na nova colônia. Em mostra de impaciência e irritação, um grupo de 26 imigrantes alojados na Armação da Lagoinha, não obstante a beleza paradisíaca da praia em cujas imediações se encontravam, em petição datada de 25 de janeiro de 1829, reiterava ao presidente Albuquerque Mello, da Província de Santa Catarina, seu pedido no sentido de encaminhá-los sem novas delongas para o núcleo colonial, como lhes havia sido prometido ainda na Europa. Manifestando o desejo de sair da imposta e exasperante ociosidade, ofereceram-se àquele governante para realizar trabalhos, como, por exemplo, a abertura de estradas.

Não obstante a inexplicável demora, os imigrantes do "Marquês de Viana" ficaram amedrontados pela notícia de que os indígenas frequentavam o vale do Maruí, nas imediações de onde seriam instalados; por isso, muitos ficavam temerosos e se recusavam terminantemente a sair da cidade.

Este terror precipitado poderia fazer malograr o futuro estabelecimento colonial se o Presidente da Província não os animasse, usando como argumento a concessão da diária de 160 réis a cada colono que se deslocasse até o lugar determinado para a fundação da colônia. Este incentivo foi bem sucedido e teve ótimos resultados.
Decorridos quase três meses após a chegada do bergantim "Marquês de Viana" à Ilha de Santa Catarina, em 11 de fevereiro de 1829 o primeiro grupo de imigrantes alemães foi transportado para a freguesia de São José, onde ficaram temporariamente alojados. Em 17 de fevereiro, eles ainda lá continuavam retidos. Motivo: falta de ferramentas e de recursos financeiros para prosseguir o trabalho. Além disso, uma grande enchente inundara as várzeas do rio Maruí, tornando-a intransitável. Mas, em 1º de março, sabe-se, por carta subscrita pelo próprio diretor de colônia, que a leva inicial de imigrantes, aproximadamente 60 pessoas, já se encontrava alojada nas dependências de seu engenho localizado no sertão de São José, no vale do Maruí. Após terem feito derrubadas na mata, construíram uma palhoça com a extensão de 50 palmos de comprimento e implantaram parte da estrada ("até o ribeirão do Planxão"). Naquela data, estavam, de acordo com a carta do diretor, empenhados na edificação de mais uma palhoça e alguns barracões para a moradia provisória das famílias.

Em janeiro de 1830, ainda estavam aquartelados na Armação da Lagoinha muitos ex-soldados do 27º Batalhão destinados à futura colônia. Estavam desgostosos e extremamente impacientes, resultado da ociosidade, do atraso no pagamento da diária de 160 réis, bem como de sua transferência para a colônia. Por isso, exigiram, rudimentarmente, a solução imediata dessas pendências. Os desgostosos deslocaram-se da Armação da Lagoinha para o centro da cidade, onde atacaram a casa do Presidente da Província, insultando-o atrozmente. Para fazê-los calar, o Presidente, diante da falta de recursos públicos, paliativamente solicitou a um negociante que lhes adiantasse uma certa soma em dinheiro, sob a sua garantia pessoal.

Quem consulta as poucas fontes históricas existentes sobre esses episódios, não foge à impressão de que o retardamento no envio dos colonos a seu destino prende-se ao fato de não haverem providenciado, a tempo, a abertura completa da estrada e a necessária demarcação das terras destinadas a mais de 100 famílias.

Na mata virgem, os trabalhos elementares eram executados de uma forma paulatina, mas progressiva. Em 10 de maio de 1829, Silvestre José dos Passos, dando ciência do desenvolvimento dos serviços a ele confiados, afirma já ter construído 36 palhoças para a habitação provisória dos imigrantes. Com relação à estrada projetada, afirma que sua implantação chega ao local denominado "Galão". Cita alguns acidentes ocorridos com os imigrantes quando da derrubada da mata: "estes acontecimentos e outros de acidentais moléstias é bastante motivo para lastimar o estado destes colonos, em desamparo da medicina, igreja e cemitério".
Diante dos contratempos quando do alojamento nos quartéis das 146 famílias que se destinaram a formar a nova colônia, 14 se deixaram ficar na cidade e seus arrabaldes e, por isso, só 132 datas foram demarcadas para igual número de famílias. Cada data media de 50 a 100 braças de frente, segundo o número de pessoas que continha cada família; todas, porém,com 750 de fundos, cujas frentes davam à estrada que conduz à freguesia de Lages. Essas terras que a princípio seriam férteis, além de sáfaras e de superfícies acanhadas, demostravam qualidade mediana e, às vezes, até infrutífera.

No início da instalação da colônia, um novo surto de insatisfação geral invadiu os imigrantes: além de atraso no pagamento das diárias a que faziam jus, havia agora condições imprevistas e adversas de duro trabalho na mata: as terras, além de íngremes e de pouca fertilidade, mostravam-se, em grande parte, desfavoráveis às atividades rurais. Já em fevereiro/março de 1829, portanto, durante os trabalhos iniciais no local escolhido para o estabelecimento da colônia, principiaram a ocorrer às primeiras deserções: algumas famílias decidiram fixar residência em Desterro e em São José, outras foram instalar-se, a partir de 6 de maio de 1830, na região do Alto Biguaçu (Louro), lançando os alicerces da cidade de Antônio Carlos.

Naquela ocasião, solicitaram, também, a concessão de terras mais adequadas às atividades rurais no Patrimônio das Caldas do Cubatão (hoje Caldas da Imperatriz e Águas Mornas). Tal pedido, porém, foi indeferido, sob a justificativa de que aquelas terras não eram devolutas e, além disso, porque estava fora do trajeto do projetado Caminho-de-Tropas para Lages.

Viram logo os colonos que toda a região onde estavam instalados não era apenas acidentada, mas ainda muito pedregosa, dificultando qualquer lavoura. A própria sede do arraial de São Pedro de Alcântara, a futura freguesia, apresentava-se apertada entre colinas, com pouca possibilidade de tornar-se um centro maior. E os alemães recém-vindos se perguntavam se não havia em toda a Província de Santa Catarina terras mais próprias para o amaino e o plantio. Havia muito mais e bem melhores. Entretanto, ficara decidido por escalões superiores que o "caminho de sertão" em direção aos campos de Lages devia passar por ali. Era a razão de ser da "Colônia dos Alemães" ali fundada.

Após os colonos terem recebido suas terras, executada a derrubada e iniciada a plantação, algumas fontes históricas no levam a crer que, para infelicidade dos imigrantes, uma parte destas ainda estava onerada com títulos de propriedade mais antiga. Formaram-se contendas e processos que, afinal, foram liquidados pela compra das mesmas terras pelos imigrantes. O cotidiano dos primeiros anos foi marcado pela insegurança gerada por problemas fundiários e pelas deficiências dos serviços públicos essenciais.

Instalados nos lotes coloniais os imigrantes construíram, então, sua primeira obra comunitária. Nascia da contribuição dos colonos a primeira igrejinha no topo da serra de Santa Filomena, junto às nascentes do Rio do Louro, para cuja padroeira escolheram a Santa Bárbara. Supomos que era tosca, de madeira bruta, construída com folhas de palmeiras, da mesma forma como seus ranchos de palha, cujas paredes e cobertura foram confeccionadas com as folhas trançadas da palmeira guaricana e em cujas dependências o vento sul soprava pelas gretas nos domingos frios de inverno rigoroso. Mas eles sentiam necessidade de se robustecerem na esperança e na fé e de continuarem unidos diante das adversidades naturais da incipiente vida na floresta virgem. Contíguo à pequena capela foram enterrados os pioneiros imigrantes, que não resistindo às adversidades da "vida nova", cederam a sua existência. A cada domingo, ou após o culto divino, visitavam os túmulos dos entes queridos. Ali, além das lágrimas, semeavam a esperança de uma vida melhor. Emergiu então, em plena floresta, um minúsculo aglomerado habitacional, a base da incipiente fundação colonial, constituindo-se no "centro" devocional e social dos imigrantes.

Instalada a Colônia dos alemães, era preciso denominá-la. Disso encarregou-se o Presidente da Província Albuquerque Mello. Em mensagem datada de 11 de julho de 1829, comunicou ao imperial ministro José Clemente Pereira que dera à "Colônia dos Alemães" a denominação oficial de São Pedro de Alcântara, "em atenção à família imperial reinante".

Das muitas promessas que já na Alemanha haviam sido feitas aos imigrantes por meio de agentes do governo brasileiro, somente algumas foram cumpridas: a das terras gratuitas e de madeiras quantas precisassem cortar. Deixaram, entretanto, de receber as ferramentas, a diária, as sementes.

Diante de parte das promessas não cumpridas, de compromissos desonrados, de terras íngremes e de baixa fertilidade, os colonos de São Pedro de Alcântara, desiludidos com a "terra prometida", em 1836 começaram a migrar. Reiteraram a solicitação de terras nas imediações de Caldas do Cubatão e lá fundam Vargem Grande migram também para o vale do Itajaí Açu, onde lançam os fundamentos das povoações de Belchior e Pocinho - hoje município de Gaspar - e também de Brusque. Posteriormente, toda Santa Catarina, e por extensão o Brasil, foi recebendo sementeira do braço forte dos colonos desse núcleo pioneiro.

A 13 de abril de 1844, o presidente da província de Santa Catarina, Antero José Ferreira de Brito, após a aprovação da Assembléia Legislativa, sancionou a lei n. 194, que erigia em freguesia, e à condição de Paróquia em 23 de abril, com os limites que indicava o arraial da Colônia São Pedro de Alcântara, com patrono homônimo, desmembrando-o da paróquia da Vila de São José. Pouco depois, a lei n. 250, de 31 de março de 1848, alterava os limites orientais da nova freguesia. Confirmada pelo Bispo do Rio de Janeiro, em visita pastoral à Província, em 1845, o citado prelado "encarregou-nos o regime da nova paróquia", escreve o Pe. Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva, que paroquiava em São José. Efetivamente a nova paróquia começou a funcionar alguns anos mais tarde, ficando ao encargo do Monsenhor Manoel Joaquim da Paixão, que também acumulava a função de vigário de São José.

***

A colônia São Pedro de Alcântara florescia às margens da estrada que a atravessa em direção à vila de Lages. Mas, poucos anos mais tarde, o governo veio a construir, na mesma direção de Lages, uma estrada paralela até o alto das Taquaras, na Serra da Boa Vista, de trânsito mais fácil e talvez menos íngreme, que subia o Vale do Cubatão, via Santo Amaro da Imperatriz e Águas Mornas. A transferência de parte do trajeto da estrada via vale do Cubatão, em detrimento do vale do Maruí, "isolou" economicamente São Pedro de Alcântara, em função da privação do comércio fomentado pelos transeuntes, principalmente os tropeiros. Foi a estagnação econômica de São Pedro de Alcântara.

Alguns anos mais tarde, a população da colônia, em 1848, contava com 145 famílias num total de número de 700 habitantes, não contando neste número muitas famílias que mudaram o domicílio para a margem dos rios Biguaçu, Tijucas e Itajaí, e muitos que residiam na vila de São José e na capital.

Se os colonos tivessem todos permanecidos no ponto onde foram instalados, de certo poder-se-ia contar na colônia São Pedro de Alcântara, em 1848, perto de 3.000 pessoas, escreve o Pe. Paiva. Seis anos mais tarde, em 1854, contava a Colônia com 1.500 habitantes, sendo trinta e tantos escravos, trezentos estrangeiros e mil e tantos brasileiros, entre descendentes de colonos e naturais do país.

De acordo com o censo demográfico brasileiro de 1980 o distrito de São Pedro de Alcântara possuía a população de 4.701 pessoas. A sinopse preliminar da população recenseada em 1991 do Distrito de São Pedro de Alcântara acusa 4.021 habitantes. Em 1990, iniciava-se um movimento com significativo apoio popular com o precípuo objetivo de obter a emancipação político-administrativa do então distrito de São Pedro de Alcântara do município de São José. Em 31 de março de 1991, foi realizado o indispensável plebiscito, quando os eleitores devidamente inscritos manifestaram-se, com expressiva quantidade de votos, favoráveis à sua emancipação político-administrativa.

Cumprido os trâmites legais e obtida, em março de 1994, por unanimidade de votos, a aprovação da Assembleia Legislativa ao projeto de emancipação, ocorreu a instituição do município de São Pedro de Alcântara, através da lei n. 9.534, que, em 16 abril de 1994, então o governador de Santa Catarina, Dr. Antônio Carlos Konder Reis, fez questão de sancionar em cerimônia realizada no solo da própria sede da histórica colônia. Os limites municipais, inicialmente fixados pela citada lei, foram depois modificados pela lei n. 9.943, sancionada em 20 de outubro de 1995. A instalação do novo município ocorreu a 1º de janeiro de 1997, com a consequente posse do primeiro prefeito e vice eleitos, respectivamente, Sr. Salézio Zimmermann e José Ademir Deschamps, bem como dos membros da Câmara de Vereadores.

***

Passados 175 anos de fundação da Colônia São Pedro de Alcântara, parte dos compromissos do governo imperial relacionados ao citado núcleo imigratório falharam. E mais evidente fica ainda que a exequibilidade da colonização não fora devidamente preconsiderada: olhava-se o fim, olvidando-se dos meios.

Apesar da falta de planejamento, do núcleo colonial concebido por estratégia militar e integrado por duas colônias independentes, a despeito da insuficiência e desorganização das metas asfixiadas pela burocracia e descaso, a Colônia São Pedro Alcântara tornou-se âncora histórica, fixando o exemplo edificante e corresponsável da fibra de uma comunidade interiorana.

Seus imigrantes, na verdade, desempenharam exatamente o papel que lhes assinalou o promotor da colonização e patrono do núcleo colonial, Dom Pedro I: ajudar a fornecer ao sul do Brasil, especificamente à Santa Catarina, uma população rural, assegurando o futuro da agricultura, além de eliminar vazios demográficos. Nesse aspecto, a colônia São Pedro de Alcântara foi muito bem sucedida. Esse núcleo colonial não foi apenas o pioneiro da colonização alemã em Santa Catarina, tornou-se, também, a célula-mater de inúmeras povoações, depois ramificadas e o berço de algumas famílias patriarcais, das quais brotariam, embora não nascidas em São Pedro de Alcântara, figuras notáveis, homens de governo, industriais, desportistas, figuras da igreja (como D. Paulo Evaristo Arns), enfim, líderes do cenário político, industrial e religioso de Santa Catarina, com destaque a nível nacional. Seria de São Pedro de Alcântara que se espalhariam também, aos milhares, por todo o Estado, descendentes daqueles primeiros imigrantes que, juntamente com outras etnias, seriam sustentáculo da economia e da sobrevivência de outros tantos milhares no futuro, desde o mais modesto agricultor até o mais badalado e influente industrial.

E hoje, quando vemos tantos nomes de descendência alemã em destaque nas mais diversas atividades sócio-econômico-culturais da sociedade catarinense, por certo, não avaliamos os sacrifícios que seus antepassados enfrentaram para transformar em realidade o sonho de prosperar, conquistando, a partir da floresta virgem, uma vida mais digna. Nessas ocasiões, muitas vezes, desconsideramos que seus pioneiros deixaram para trás seus familiares, sua aldeia natal, sua pátria, com seu referencial cultural para tentar vida nova no Brasil e nos legar uma vida mais próspera.

São Pedro de Alcântara é um marco imigratório que à memória histórica catarinense convém preservar para a posteridade: deficiências humanas, omissão governamental e contingências da natureza estimularam esses membros da primeira comunidade alemã instalada em Santa Catarina a desenvolverem uma fibra que se tornou um exemplo de união e resistência na adversidade. A vida imprimiu nos imigrantes e nos seus descendentes, tenacidade, determinação pelo trabalho, além de sólidas bases morais e religiosas; a alguns sorriu com prosperidade econômica e cultural, enquanto a outros dotava com indispensável liderança comunitária.

O Estado de Santa Catarina deve aos imigrantes de todas as etnias que o constituíram, entre elas a alemã, a condição de seu desenvolvimento econômico e social, além de uma substancial contribuição para uma economia agrária invejável. O pouco desenvolvimento da primeira colônia alemã barriga-verde - São Pedro de Alcântara - só não foi mais acentuado devido aos brios desses pioneiros e de seus descendentes: os atores dessa história da vida real que, em 1º março de 2004, comemorou 175 anos de existência no Estado de Santa Catarina.




Localizações das colônias alemãs ao sul do Brasil





Brigue 





Destêrro em 1797





Destêrro em 1827




Destêrro em 1866




Destêrro em 1867




Familia de colonos alemães construindo moradia na região em que hoje 
é o município de São Pedro de Alcântara




Destêrro em 1824 - cerca de 5 anos antes da chegada dos primeiros imigrantes





























Construção típica em estilo enxaimel, no centro do município de São Pedro de Alcântara, 
com destaque para a Àrvore da Primavera  - "Frühlingsbaum"



Àrvore da Primavera - "Frühlingsbaum"
Instalada em 2009 na praça Leopoldo Kretzer para comemorar os 180 anos 
da colonização alemã em Santa Catarina, e os 180 anos da criação 
da colônia de São Pedro de Alcântara.
 Possui quarenta brasões, apenas das famílias inscritas na comemoração do evento, 
cujos sobrenomes pertencem aos pioneiros que contribuíram para a origem do município.





Orada dedicada a Santa Bárbara no exato local da
Capela de Santa Bárbara que foi construída pelos imigrantes em 1838.
Por ter sido feita com material rústico e fraco, a capela ruiu e, em 1915, foi colocada 
uma cruz de ferro em seu lugar. A seu pé foi fixada uma placa de bronze 
com os seguintes dizeres:
"Peregrino, o chão onde pisas é chão sagrado. Aqui, de 1838 a 1915 erguia-se 
a Capela de Santa Bárbara, erguida pelos primeiros colonos do Estado de Santa Catarina.
Reverencia os mortos que aqui jazem".
Ao lado desta capela havia o cemitério dos primeiros imigrantes. 
Hoje, nem a capela, nem o cemitério existem mais.





Santa Bárbara: virgem mártir no século III. 
Invocada pelos católicos do mundo inteiro como protetora
dos momentos de tempestade, explosões, chuvas, morte trágica,
raios e trovões. É padroeira dos artilheiros, dos mineiros e de todos os profissionais
 que trabalham com fogo. Na Alemanha era também a padroeira dos habitantes das regiões
 montanhosas - os primeiros imigrantes vieram de Hunsrück que é uma região montanhosa, 
 e a maioria de seus habitantes trabalhavam na mineração.
Sua devoção também está ligada às festividades do Natal, às safras, ao namoro e
 aos casamentos. Seu dia comemora-se em 04 de dezembro. 
Na colônia de São Pedro de Alcântara, todo o dia 04
de dezembro celebrava-se na "Barbara Kapell" a festa da santa.
Em 1969, seu culto foi suprimido pela Igreja Católica (quanto aos motivos,
não encontrei fontes confiáveis).





Registro da prática da caça à baleia, muito comum no litoral de Santa Catarina, 
em particular, na Armação da Lagoinha.





Porto de Destêrro. Meados do início do século XX.



São Pedro de Alcântara ainda colônia em 1935. Ali, São Pedro era ainda 
distrito de São José e só na década de 90 é que viria a se emancipar. 
Na foto, a igreja matriz, onde quatro anos depois meus avós viriam a se casar.




Marco comemorativo do centenário da colonização alemã de São Pedro de Alcântara, em São José no ano de 1929.
(Foto do livro "São José da Terra Firme", de Gilberto Gerlach e Osni Machado).
































São Pedro de Alcântara em meados de 1860.


São Pedro de Alcântara em 1935.
























Em 1953.




Também em 1953.





Sede do município em 1929 com a igreja matriz em construção.






























Construção antiga no "Campo de Demonstração" - 
lugarejo onde se instalaram diversas famílias.




Casa Construção típica abandonada em Santa Filomena (SOLIGO, 2009).




  

"Monumento ao Tropeiro".
Este monumento que retrata uma típica família de colonos imigrantes está localizado na praça central de São Pedro de Alcântara/SC
(Praça Leopoldo Francisco Kretzer). É um monumento em
 homenagem aos imigrantes da primeira colônia alemã de Santa Catarina.

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