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A língua Hunsrückisch: o idioma da familia Schmitz Pitz

Na foto, o print de um pequeno comentário na língua Hunsrückisch.



Muitos pensam que no Sul do Brasil (SC e RS) e nas pequenas colônias do Espírito Santo, os antigos colonizadores e descendentes destes vindos do Sudoeste da atual Alemanha, mais precisamente do atual estado da Renânia Palatinado (Rheinland-Pfalz), falam a língua alemã padrão (Hochdeutsch) que muitos estão acostumados a ouvir (mesmo sem entender nada), nas falas de jogadores de futebol, pilotos de Fórmula 1, da chanceler Angela Merkel, entre outros. Outros até mesmo chegam a dizer que não é Hochdeutsch, mas um Hochdeutsch "atravessado", "errado". Um suposto "dialeto".

Em muitas localidades colonizadas por imigrantes germânicos no Sul do Brasil, os descendentes deste não falam o alemão, genuíno, padrão. Pelo menos a maioria dos descendentes destes imigrantes. Basta ir às antigas colônias e remanescências no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo para se deparar com uma língua diferente.



O Hunsrückisch é uma língua brasileira, de raiz germânica. Sua formação surgiu a partir da língua Francônio-Renana/Moselana (Rheinmosel-Fränkisch), antigamente falada na antiga Rheinprovinz (território pertencente ao Reino Prussiano) e que foi trazido pelos colonizadores para o Brasil na primeira metade do século XIX. Com o tempo e com o convívio social com falantes nativos do Português, o Rheinmosel-Fränkisch sofreu variações. Mesmo assim, O Hunsrückisch ainda possui muito dessa antiga língua da região da antiga Rheinprovinz (Hunsrück, Eifel, Mosel, Hessen, Westfalen...) e possui sonoridade quase idêntica a certas palavras do Hochdeutsch.




Quem conhece pelo menos um pouco do alemão padrão, vai perceber que certas palavras do Hunsrückisch semelhantes, embora com sonoridade e escrita diferente.

Por exemplo:



Tswansich = zwanzig (vinte)
Proyëkt = Projekt (projeto)
muxt = musst (Verbo: ter que)
xprëche = spreche (Verbo: falar)

O Hunsrückisch possui peculiaridades, características que a definem como uma língua. Esta língua (mesmo sendo a língua materna de muitos), é considerada por muitos de seus falantes como "errada", mas não é. Estudos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontam que os falantes da língua Hunsrückisch tem maior facilidade de aprender o Hochdeutsch devido às semelhanças fonéticas e, às vezes, gramaticais entre a língua e o alemão padrão. Cabe ressaltar, que a língua Hunsrückisch tem diferenças de pronúncia, por exemplo, entre os estados sul-brasileiros, e entre colônias.

Muitos falantes sabem falar apenas o Hunsrückisch (como é o caso de minha mãe, meus tios, meus avós e bisavós - estes últimos, quando vivos...), mesmo assim, os textos escritos em alemão lidos nas missas e catequeses pelos padres eram facilmente compreendidos pelos falantes desta língua.



Minha mãe, Nelma Isabel Pitz, por exemplo, tinha dificuldades com a gramática alemã (Hochdeutsch), mas fala muito bem o Hunsrückisch (a língua falada nas cidades de São Pedro de Alcântara/SC, Antônio Carlos...). Apenas fala, mas não escreve. Falava em casa com a familia e logo foi substituído pelo Português aprendido na escola. Mesmo assim a língua continuou sendo falada dentro de casa, apesar da influência do Português.


Na Alemanha existem diversos dialetos que variam de região para região. As pessoas em casa aprendem o dialeto, e somente na escola aprendem o alemão padrão.

Abaixo, alguns exemplos na língua Hunsrückisch:

Tradução: "Pessoa 1: Eu preciso melhorar meu corpo até o Natal... Pessoa 2: Eu preciso melhorar o corpo até o Natal... E o Peru: merda (palavrão)".


Tradução: "Mas isso não é verdade. Você trouxe nenhum peixe".

Abaixo compartilho dois vídeos com entrevistas concedidas por falantes da língua Hunrückisch no município de Biguaçu, estado de Santa Catarina (Grande Florianópolis).

Neste município, assim como na maioria dos municípios da Grande Florianópolis que surgiram a partir de São Pedro de Alcântara, a primeira colônia germânica de Santa Catarina (Antônio Carlos, Angelina, Rancho Queimado, Anitápolis, Santo Amaro da Imperatriz, São Bonifácio...), muitas familias ainda têm em seu seio a fala da língua Hunsrückisch. Porém, a fala é mais presente nas familias com pessoas mais velhas, como os senhores dos vídeos.

A primeira entrevista é com o senhor Vanir Mannes, de 59 anos. 

Vanir Mannes, 59, ist ein Bauer von Biguaçu, Santa Catarina, Brasilien. 
Er spricht die deutsche Sprache von der Gebiet, die Hunsrückische. 
Gravação: Jornal Biguaçu em Foco (Zeitung Biguaçu im Treffpunkt). Data: Quarta (Mittwoch), 20.10.2010. 
Local: Escritório Jornal Biguaçu em Foco.
A segunda entrevista é com o senhor Leonídio Zimmmermann, de 80 anos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Biguaçú/SC.


Herr Leonídio Zimmmermann, 80 Jahre alt, Präsident den Bauer Syndikat Biguaçus, Santa Catarina, BRASILIEN, spricht auf Hunsrück über die Geschichte der Sprache in der Gebiet. 


Er hat mit den Journalist Ozias Alves Jr, der Herausgeber der Zeitung Biguaçu em Foco (Biguaçu im Treffpunkt) gesprochen. 

Gravação: 21.01.2009. Local: Sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Biguaçu. Bairro Vendaval. Biguaçu. Santa Catarina. Brasil.





A Língua Hunsrückisch: rumo aos 200 anos de Brasil!


É sabido que, em meados do século XIX, uma grande leva de imigrantes vindos da região sudoeste do que hoje chamamos de Alemanha (região que compreende os atuais Estados de Hessen, Nordrhein-Westfalen, Rheinland-Pfalz, Saarland e Luxemburgo), vieram para o Brasil em busca de melhores condições para reconstruir suas vidas, fugindo de um império alemão cheio de incertezas, desemprego, fome e miséria, causados especialmente pela ascensão da burguesia, pelo advento das máquinas à vapor e por questões políticas que envolveram fortemente a Europa naquele período.


Iludidos sob promessas de aliciadores alemães e de um falso apoio do governo imperial brasileiro, ao lhes oferecer terras devolutas e subsídios para o trabalho na agricultura, e guiados pelo sonho de encontrar neste "paraíso" o "leite e o mel" que os faria melhorar de condições financeiras, os pioneiros imigrantes germânicos que adentraram principalmente aos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo tinham algo em comum além da cultura, da região de onde partiram e das tradições e costumes: A LÍNGUA.

Naquele período, nesta região do sudoeste da atual Alemanha, era falada a Língua Francônio-Renana/Moselana: uma das línguas germânicas que influenciaram a criação do Hochdeutsch.


Esta língua possuía características próprias, com vocabulário e fonemas próprios, alguns semelhantes e outros bem diferentes do atual alemão-padrão e das outras línguas germânicas faladas na época.

E no Brasil, ao longo dos quase 200 anos de presença germânica, diante da necessidade de se adaptar aos costumes e de bem se comunicar com os brasileiros, os pioneiros e descendentes buscaram aprender o português principalmente do jeito que ouviam: com isso alguns vocábulos da Língua Portuguesa foram incorporados à Língua Francônio-Renana/Moselana.

Um exemplo disso é a palavra "televisão" (vocábulo que denomina um aparelho utilizado para assistir imagens em movimento) que na época da imigração ainda não existia. Com o passar dos anos, este vocábulo foi incorporado pelos falantes da Língua Francônio-Renana/Moselana e, por ouvirem e falarem do seu jeito, conforme a fonética e pronúncia que estavam acostumados, surgiu então um novo vocábulo na Lingua Francônio-Renana/Moselana: "tëlëwison" ou "Tëlevisong". Na Alemanha, com a padronização do alemão, tornou-se "Fernseher". Assim também aconteceu com as palavras "caneca" (que no Francônio-Renano/Moselano, dentro do Brasil, tornou-se "kanëk"), "caneta" (que tornou-se "canett"), "feijão" (que tornou-se "feschón), "facão" (que tornou-se "fakón), entre outros. Cabe ressaltar que estes últimos vocábulos surgiram através do contato com a Língua Portuguesa.


Atualmente são mais de 4 milhões de falantes da Língua Hunsrückisch no Brasil, sendo a segunda língua materna mais falada no Brasil, perdendo apenas para o português e ganhando até mesmo das línguas indígenas (proporcionalmente em número de pessoas que falam ainda hoje o Hunsrückisch dentro de suas casas).

A língua Hunsrückisch nunca foi escrita de forma padronizada no Brasil até meados do ano de 2006, quando a linguista Úrsula Wiesemann conseguiu transcrever os fonemas da língua e a partir daí criou códigos que fossem fáceis de assimilar pelos falantes maternos e nativos (falante nativo é todo aquele que ouviu a língua, não conseguiu aprender na infância, mas que, tempos depois, por estudo, conseguiu assimilar a língua falada pelos pais/avós...). Na região do Hunsrück (atual estado de Rheinland-Pfalz/Alemanha), a literatura de Peter Joseph Rottmann (*9 de abril de 1799 - Simmern/Hunsrück; † 27 de fevereiro de 1881 Simmern/Hunsrück) escrita em francônio-renano/moselano era bastante conhecida entre os que ficaram na atual Alemanha e os que vieram para o Brasil. Este era o poeta dos renanos-hunsrückers e assim é até hoje.

Vários livros foram publicados com mais facilidade após a criação da ortografia hunsrück pela Profª Wiesemann; até mesmo um dicionário da Língua Hunsrückisch, elaborado pelo professor André Kuster-Cid (descendente de renanos-hunsrückers do Espírito Santo) e outros estudiosos. O filme teuto-brasileiro "Os Mucker" (Rio Grande do Sul, 1978), dirigido por Jorge Bodanksy e Wolf Gauer tem a maioria dos seus diálogos falados em Hunsrückisch. O filme recebeu vários prêmios e Kikitos (premiação do Festival de Cinema de Gramado/RS) de melhor atriz, melhor direção e melhor direção de arte.

Tanto no Brasil como na Alemanha, a língua Hunsrückisch é reconhecida como língua de raiz germânica descendente do Francônio-Renano/Moselano falado na Alemanha, e sua importância, tanto no território brasileiro como na região onde permaneceram os parentes daqueles que vieram para o Brasil, fez com que a Editora Tintenfass publicasse a tradução de um dos livros mais lidos no mundo, "O pequeno príncipe", para a Língua Hunsrückisch (este livro atualmente é vendido no site da editora alemã).


* Mais de 4 milhões de falantes no Brasil;

* Seus principais núcleos são nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo;

* Dois municípios brasileiros (Santa Maria do Herval/RS e Antônio Carlos/SC) já declararam em lei, o Hunsrückisch como sendo língua co-oficial do município, e outro município já ensina o Hunsrückisch nas escolas: Estância Velha/RS;

* Nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o Hunsrückisch já é considerado por lei como patrimônio histórico e imaterial, sendo a existência reconhecida e perpetuação da língua protegidas por lei...

Com costumes, cultura, história e língua próprias, é fácil dizer que existe uma DEUTSCHBRASISCHLAND dentro do território brasileiro.

Os deutschbrasilianer apenas não possuem um território delimitado, demarcado formando um país, mas existe nos dias de hoje no seio dos lares que descendem dos pioneiros imigrantes que fundaram as colônias, principalmente nestes três estados brasileiros. Existe nas tradições e costumes que comumente chamamos de "germânicas"; no carteado de domingo com a familia; existe na gastronomia feita com "katofla" ("kartoffel" ou "batata"), no chucrute ("Sauerkraut"), na Schnaps ("cachaça") e na galinha assada com recheio alemão; nas bolachinhas pintadas para o Natal (que na Alemanha são conhecidas por "Weihnachtsplätzchen") e na cuca (na Alemanha conhecida por "Blechkuchen") feita pela Oma para o café da tarde. Ou será para o almoço? Seria para a janta? Deutschbrasilianer come cuca quase o tempo todo, não é assim que dizem?

Sou descendente renana-hunsrücker dos pioneiros que fundaram a primeira colônia alemã de Santa Catarina (São Pedro de Alcântara) e tenho orgulho disso.

Da mesma maneira têm orgulho os descendentes que se identificam com as palavras que escrevi: eles sabem do que estou falando.

Isabel Cristina Pitz Espíndola
Autora do blog Unsere Geschichte: genealogia da familia Schmitz Pitz em Santa Catarina. Renana-Hunsrücker/administradora, redatora e repórter da página Deutschbrasischland.

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